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Geração Perdida de Minas Gerais

Perdida

by Paola Rodrigues

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geracaoperdida.bandcamp.com

Esse disco é dedicado à minha mãe e a meus amigos, especialmente ao Vitinho, sem o qual esse disco não existiria, ao Marcelo e o Jonathan e à Geração Perdida e seus entusiastas.

credits

released April 21, 2014

Gravado, produzido, mixado e masterizado por Vitor Brauer no estúdio caseiro da Geração Perdida de Minas Gerais.

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Paola Rodrigues Brazil

Paola Rodrigues é tatuadora, artista visual, videomaker, compositora e membra do coletivo/movimento Geração Perdida de Minas Gerais

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Track Name: Minha Casa Sou Eu
Essa é minha casa
minha casa é assim: uma janela
minha casa é suja, barulhenta
pequena por dentro, mas lá fora é só azul
é por isso que eu não paro em casa

eu não tenho outra casa pra voltar
eu sou sozinha
eu sei que no fundo todo mundo é,
mas não me fizeram nem uma ilusão

minha casa sou eu
minha casa é escura e eu ando tateando as paredes, o chão
acho que é por isso que na casa dos outros eu não paro de tropeçar
é uma claridade que me cega
toda casa que eu vou eu me pego tateando os móveis pra ver se me reconheço
mas é quando eu sinto as rachaduras que eu sei onde é que eu tô

minha casa sou eu
Track Name: Vida Lúcida
Assim como ninguém explicou o início
As ondas continuam a chegar na costa
Tudo corre sempre em direção ao fim
Os copos caem e as cidades se amontoam em nossas costas
Amar o perdido deixa confundido este coração

Ainda que os dias continuem a nascer
Os ônibus andem, os outros durmam
Meus pés tropeçam em suas pernas
E eu calo a boca ao seu lado
Nada pode o ouvido contra o sem sentido apelo do não

E por que é que não estamos satisfeitos?
Ou por que é que tentamos não estar simplesmente bem com o que é perfeito?
E duvidamos de uma vida lúcida

Depois de alguns cortes encontro vocês, meus amigos
Que também são vidro, cortam e quebram
Tudo por ter duvidado de que não seria assim tão trágico
Mas bom
E volto a sentir areia nos meus pés
As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão

Duvidei e talvez ainda duvide
De que tudo isso tenha como acabar bem
E de tantas outras coisas que hoje são tão bobas
E talvez um dia eu ria de tanto duvidar
De que a vida pode ser grande, com vocês
Em geral a gente tenta não deixar manchas
Nem gritar muito alto só pra manter a ordem das coisas
A dor é muda e a rotina caminha lenta
Acumulando concreto em nossos corpos
Num gigantesco escombro que chamamos de casa

Eu não me esforço pra lembrar
Daquele dia em que nos reconhecemos
Do amor que eu sinto pelo amor que você sente
Por todas as coisas que não sou eu
E por todos os ossos

Esses anos passaram rápido
E eu não pude notar o momento da despedida, pela segunda vez
Talvez eu tivesse dito alguma coisa
Talvez eu tivesse pedido desculpas
Por não ter sido perfeita
Mesmo sabendo que nunca estamos satisfeitos

E por que é que não estamos satisfeitos?
Ou por que é que tentamos não estar simplesmente bem com o que é perfeito?
E duvidamos de uma vida lúcida

Mesmo que visse pouco, eu te vi naquele bar
Num dia em que nada fazia sentido e nem tinha valor
Eu vi em você o amor ébrio e talvez alguma pena,
Você me levou pra casa e abraçamos uma despedida
Como quem dá adeus a um dia único
Depois disso encarei o chão entorpecida e com vergonha da verdade
Vi a areia suja em nossos pés

A noite segue seca
E assim como ninguém explicou o início
Longe, as ondas continuam a chegar na costa
Tudo corre sempre em direção ao fim
Os copos continuam a cair
E amar o perdido ainda deixa confundido este coração
Track Name: Insônia
Talvez um dia eu pudesse dormir cedo
Mesmo sabendo que ainda temos medo
Eu nunca seria toda sua também
Sou feito vidro sujo com você

Só por temer
Morrer mais uma vez
Só por temer
Nunca mais te ter

Tudo o que aconteceu me fez lembrar
De como eu me sentia há muito tempo atrás
De quando não me havia lugar no mundo
E quando eu vivia a me desculpar por tudo

Como um filho bastardo
Que ama sempre escondido
Porque muito bem sabe
Que é não é nada mais que lixo
Nos seus olhos e braços
E nos seus caprichos

Até que então
Eu decida
Não te ver

Até que então
Eu desista
De você
Track Name: Chumbinho
A hora mais leve do dia
é aquele minuto depois de acordar
quando eu esqueço que você morreu


Desde o dia em que você tomou a sua dose de morte
pra mim é tudo suicídio (pai)
1 ano depois, eu ainda me pergunto se a minha vida
não é só a continuação da sua
quem sou eu e qual a parte de você em mim
minha mãe ainda teme todos as nossas semelhanças
eu ainda grito por dentro e me sufoco
mesmo sabendo que nunca vai passar
que o suicídio de um pai permanece pra sempre
na vida de um filho perdido como eu
não importa o que aconteça
eu ainda te amo
e me odeio (tanto)

Não sei, acho que é porque alguém me disse que
os suicidas não vão pro céu
E depois eu li em algum lugar
que quando você bebe demais, fuma demais, vivi demais
que isso também é suicídio
que é tudo veneno que a gente toma aos goles
e se for assim, pai
eu me suicido todo dia

4 copos de café
7 copos de cerveja
2 dedos de chumbinho
1 dose de cachaça
3 colheres de açúcar
pra uma vida amargurada
com 42 anos, não existe café forte
com 20, ainda me sobra a insônia de
1/4 de doce
3 tragos de tosse
dois dedos de conhaque
1 copo de chumbinho
mil goles de veneno
e uma garrafa de vinho

não tem café forte que cure essa ressaca

O Meu gole de veneno diário
é o amargo do café puro
que me mantém em pé
e que me amarela os dentes
Eu me suicido todo dia

O Meu gole de veneno diário
é aquela memória que eu criei
do seu reflexo no meu espelho
com aquela cara de "porque não?"
Eu me suicido todo dia

com
7 copos de cerveja
4 copos de café
com 2 dedos de chumbinho
1 dose de cachaça
todo o cansaço de uma noite
mais pó da madrugada
com 42 anos, não existe café forte
com 20, ainda me sobra a insônia de
1/4 de doce
3 tragos de tosse
dois dedos de conhaque
1 copo de chumbinho
mil goles de veneno
em 4 taças de vinho

Mas não se preocupa com isso não, pai
agora eu sou muito mais forte
e sei muito mais sobre o amor e a morte
e mesmo que eu morra todo dia,
quase sempre sobrevivo
Track Name: Para Quem Não Foi (part. Jonathan Tadeu)
Há um enorme espaço vazio
Entre o que eu sou e o que eu deveria ter sido

Um abismo
Track Name: A Máquina (part. Vitor Brauer)
Nasceu em 92 a neta bastarda dos Mello
para que tão cedo quanto pudesse
renunciasse a seu sobrenome
pediu desculpas aos bons,
mas não pôde evitar e cuspiu no prato que comeu
sem o mínimo de remorso
Nunca aprendeu a respeitar
as mãos de um velho
que lhe acariciava suavemente o rosto
e lhe pedia com sua voz de pelúcia
que contasse consigo para tudo e qualquer coisa,
mas que fizesse o favor de ficar longe de sua vida

Desde pequena ouvia todas essas besteiras que diziam os esotéricos
egoísta, egocêntrica e artista era sua profecia
nascida no mês de agosto
Logo soube quem era e quem é que deveria ser
mesmo antes que pudesse pensar
mesmo antes que pudesse olhar e ver
que o conceito fechado que lhe criaram
começava a ser absorvido e então já não sabia
qual era a parte que lhe ensinaram a ser e qual era a parte genuína
Mas o mais engraçado é que tudo muda
e ela também mudava, e então a decepção do imprevisível
pois a máquina é sempre programada pra permanecer
os mesmo horários, os mesmo empregos, e os mesmos salários
as mesmas férias na bahia, o mesmo carnaval e os mesmos fracassos

Nada se difere porque nada é especial
porque nada é original e tudo é parte da mesma máquina
que move a todos sempre no tempo certo, na hora do rush
ou que os mantém em casa com os olhos grudados na televisão
nos domingo ou na segunda a noite
Porque ninguém se difere porque ninguém é especial
porque ninguém é original e são todos parte da mesma máquina

Quanto mais você luta, mais você se frustra e mais você repele
Quanto mais você aceita, mais você se sujeita e mais você destrói
Quanto mais você se fecha, mais você se quebra e mais você se fere
Quanto mais você chora, mais você implora e mais você corrói

É, meu irmão, eu sei, quanto mais você se entende mais você fica perdido
E o que a gente vai fazer se quanto mais a gente acha que sabe do mundo mais a gente é destruído
É muito simples - você se torna parte da máquina, você se torna parte da máquina, você se torna parte da máquina

E o que é que você vai dizer quando te fazem crer que o que eles fazem é tudo feito pra você
E o que é que você vai dizer quando te fazem temer os que são tão próximos e que estiveram do seu lado desde a primeira vez
E o que é que você vai dizer quando te encontram com a faca na mão e sua mãe sangrando no que era pra ser o seu lugar e você no alto de um prédio pronto pra pular

E a máquina continua e a máquina continua
Track Name: No Futuro
Um dia eu dormi
pra acordar 40 anos depois
e no futuro, tudo ia bem
o dinheiro, os lugares e as pessoas
não eram mais um problema

No futuro eu continuava sendo quem eu sempre fui
preocupada de que no futuro
eu continuasse sendo a mesma pessoa
sempre com medo de não sustentar
a tragédia de uma vida boa

As ruas e os dias andavam rápido
me afastando pra cada vez mais longe
das minhas memórias e da minha sanidade
e eu começava a me perguntar quando seria o fim
entendendo depois que o melhor jeito de viver
é sabendo que vamos morrer
antes da hora de nos despedir

No futuro tudo passou
e ainda passava
nós estávamos cada vez mais parecidos
nada tinha seus detalhes originais
tudo era profissional e esterilizado
nós também: cortados, moldados e digeríveis

e nesse mundo uniforme
eu reconheci as mãos de um homem
que 40 anos antes
me dizia sobre os semelhantes
um homem fantasma criado pelos meus sonhos
que eu projetei por tanto tempo em tanta gente

E então me despertou a ideia
de que essas coisas já não tinham valor
porque tudo se perde
tudo, tudo, absolutamente tudo
tudo e todo mundo

o amor não suporta o seu próprio peso
não se suporta por si mesmo, assim como somos nós
e eu aceitei o que era certo mas vazio
pelo medo da eterna solidão
o grande amor de outros, mas nunca o meu

E no futuro a minha garganta se torceu
ao perceber que talvez eu nunca tenha tentado
pela covardia ou o medo da falha
Como quando finalmente entendemos a graça de uma piada contada
e então ela já não faz sentido
porque passou como tudo que passa e se perde
tudo, tudo e absolutamente tudo

No futuro estávamos mais próximos de deus
onipresentes, oniscientes e onipotentes
nós e todos os nossos aplicativos, invencíveis
próximos de deus e longe dos nossos
separados por distâncias enormes e horas no trânsito

O futuro tinha as mesmas raízes do presente
e tudo o que é importante hoje, sempre será
a dor e o amor são os únicos temas, como ensina Vinícius
e não existem os grandes artistas, só os pequenos
porque o que é que nos tira a fome ou não nos deixa dormir?
são sempre as mesmas coisas

Não são as guerras dos outros
Não são as roupas novas
Não é a louça suja e nem os móveis empoeirados
Não é a política e nem o futebol
Não são os objetos roubados e nem o carro amassado

O que nos tira a fome ou não nos deixa dormir
são sempre as mesmas coisas
a dor e o amor não tem tempo nem lugar
no futuro e no passado
foi tudo que algum dia me fez mudar
porque tudo passa e se tudo perde
tudo, tudo, absolutamente tudo
tudo, tudo...

Não, não, nem tudo
Track Name: Afinal (part. Marcelo Diniz)
As ruas andam frias, de uma lucidez irrecuperável
Há um rato vivendo como vivem os ratos
Na rua. Mas ainda é dia sem sol
Ao longe.
Eu peço um café em uma rua de Belo Horizonte
como fazem aqueles
como eu esperam pelos seus encontros.
Há uma lucidez irrecuperável nessa cidade
E eu cheguei há 30 minutos, como fazem aqueles
Como eu. Afinal.
Ao longe,
penso em dizer sim.
Viver, afinal, na avenida pra não me perder nas esquinas
Já disse que meu tempo, eu vivo num tempo
rabiscado. Pago aluguel e me adianto.
Me confundo com seus olhos de alguém que desconheço.
Caminhas pela cidade, certa
Ao longe.
Vais pra longe da fumaça do meu café
Meus olhos já te perderam, sem nos
vermos conhecermos.
Sem cheiro e sem suor.
Clara anda a cidade.
A vida anda tão lúcida. E cabe no lugar.
Não cai, nem
se culpa.
O café queima, combina com o cigarro
E meu suor da cidade lúcida.
A cidade anda tão lúcida.
Fria
Fria que está, segue com outro café.
Eu peço outro café, mas não nos confundimos.

Lembranças escrevo, vinganças de medo.
E onde há de estar meu amor
meu costume tão dolorido
Escrevo lembranças num espelho que lembra amor
Lembra subir a cidade lutar viver
Mas as ruas andam tão lúcidas
A cidade anda fria e lúcida
Irrecuperável.
E é época de ter um livro.

Sim, já é noite.
A noite sangra feito um rato na rua.
E mostra que as coisas continuam existindo.
Na cidade cheia de morros.
Lembra que nada disso vive em mim.
Porque sonho, eu sonho
E viver seria só reescrever as canções
Nos bares e na minha cama.
Não entendo dessa lucidez
Penso em poder te ver. Sem terminar jamais.
No terceiro café. Sei que não estás.
Não me olhas, nem dizes meu nome.
Você morreu. Eu penso no seu calor.
Seu suor, seu café fraco
feito meu peito.
Penso em você. Nos amamos como
a melhor ficção. Descobrimos a despedida.
Me humilhei pela vida que
sonhei. Me humilhei pra viver nossa paixão
errada
Me humilhei.

Sentado na esquina.
Fomos novos, amantes.
Mas você não está. E eu me lamento
de escrever em espelhos.
Me humilho, por tanta vingança
por ser patético.
Porque você não existe em mim.
Meu amor.
Você morreu sem que eu entendesse
Você morreu sem que eu entendesse de morrer.
Você se foi feito um livro emprestado que se perde.
Porque você não existe em mim.
Porque você não existe em mim.
Porque você não existe em mim.
Porque você não existe em mim.
Porque você não existe em mim.
Meu amor. Sem você. Fria.
Ao longe. De noite, em noite
Noite por noite, por lágrima e ressaca.
Até de manhã e a dor não vai.
Por que amar não existe em mim
E ainda te amo. Torto e errado.
Meu amor.
Há razões pra todos que escutam.
Que vivem, afinal.
Track Name: O Espelho
Eu fiquei quase aliviada quando entrei na casa e te vi
sentada na cozinha carregando o mesmo olhar que eu
o mesmo olhar de quem se pergunta o que será essa coisa
de que precisamos pra fazer parar de doer

e esse é o único assunto
você tenta me explicar esse mal que eu também sinto
e me aponta o peito pra que veja
o meu peito? o seu peito? me confundo
falamos das esperança de alguém que nos salve
uma pessoa que esperamos num desespero quase calmo
uma pessoa na qual não acreditamos de fato

E eu queria te ver todos os dias
como quando você morava comigo e o mundo passava devagar
mas a gente sabe que as coisas não são assim
e inventamos outras coisas pra fazer
outros caminhos pra seguir
porque somos espelhos, iguais e trocadas
e então notamos que nos alimentamos uma da outra
pro bem ou pro mal

Enquanto nos intoxicávamos você tentou me explicar
uma série de coisas que eu nunca entendi
mas foram tiradas de mim
e quando eu dormi, sonhei os seus sonhos
roí os dentes e pedi todo o tipo de socorro na língua dos que adormecem

Pela manhã eu pensei que você deveria ter sonhado também os meus
porque me dizia do peso que sentia nos dentes, o peso do mundo
e nos meus dentes ou nos seus dentes
eu me confundo
mesmo que talvez você não se confunda comigo
porque você é o meu espelho e eu te reflito

não podemos carregar uma a outra
mas podemos nos ver de vez em quando
e sentir isso que talvez seja cumplicidade
e, minha amiga, você foi pro mundo
e hoje eu me preocupo com você
porque não posso te ver
nem se quer pra saber que ainda aguentamos, não tão firmes
mas ainda fortes

Eu sonho com o dia de um reencontro
em que você vai estar bem e leve
como se quando você estivesse assim
por algum tipo de magia eu também ficaria
e a nossa esperança estaria restaurada
e nós poderíamos passar sem pensar sobre o que é viver
sem pensar sobre o que é morrer
sem pensar

lembro de você sempre e sei que você vai escutar
essa música que fala de nós
mas é também um recado que te mando em qualquer lugar
seja la o estado
um recado que diz que vamos
ficar bem e que eu te amo
mesmo sem saber hoje o tamanho
e me limpo o ranho do choro que derramo
mesmo sem saber
Track Name: Noites Doces
Eu sei que a gente vive falando mal da vida
reclamando de tudo e de todo mundo
mas a verdade é que a gente não vai nada mal
Pode parecer mentira eu falar uma coisa dessas
em tempos de tanta perda, mas é verdade
porque apesar de ter dito antes que a minha casa ta em mim
eu sei também que a casa da gente tá onde os nossos amigos tão, né?

Quando eu cheguei aqui eu não entendia ninguém e odiava sentar numa mesa de bar
Mas hoje eu posso passar metade de um dia indo de bar em bar com vocês
só olhando pras mesmas caras e rindo das mesmas piadas
e isso me faz feliz
ou então quando a gente vai no karaokê cantar aquelas musicas ruins
e conversamos no meio daquela gritaria sobre as coisas mais irrelevantes
ou falando as coisas sérias meio que rindo

As vezes a gente faz aquelas festas lá em casa
e a síndica fica doida porque vocês nunca se cansam, nunca se cansam
É bom também quando dá pra viajar e ver a outra parte de vocês
e eu me lembro de um outro pedaço de mim
tentando sempre alcançar o presente
a gente vai na praia pra saber que tá tudo igual ainda
e talvez sempre vá estar

Até que a gente percebe que se conhece
bem demais mesmo nesse superfície opaca que criamos
e então alguém apoia as mãos nos meus ombros e isso é tudo
e então alguém me bate na cara preu acordar e isso é tudo
ou me chuta a bunda, ou me zoa dizendo "Paola agora é música"
e também me carrega pelas escadas falando que eu só preciso de um banho

E então algumas noite, nós ficamos tão doces
por meia hora sem respirar e bebendo só fumaça
vendo os desenhos bonitos dos azulejos
gritando e estendendo as mãos pelas ruas
e as grades girando em espiral
e não conseguimos sair do apartamento por causa da água empoçada
Evitando os cantos das boates
essas luzes estão tão brancas, né?
e todos os gestos exagerados
o desconforto de estar no meu corpo
todas as músicas são boas
mas algumas, desconfortáveis
o toque de pele com pele, veludo quente
as viagens de ônibus a 200km por hora
todos os personagens de um livro em mim
a leveza insustentável de ser
a dificuldade de respirar diante de todas essas cores que eu nunca vi antes
todas as voltas que damos pra explicar
que isso me faz sentir bem
e que talvez todo o resumo
seja só que eu amo vocês
mesmo perdida nessa confusão
que só existe diante dos meus olhos
Track Name: Bahia Perdida
"Erê ara Eu sou filho de Iêmanjá
Ara rere Eu sou filho de oxalá"

6 é o número do Diabo
90 a década perdida
3 anos de distância

Ainda sinto o cheiro do suor de vocês
o brilho fosco nas minhas lembranças do fruto de ouro
que só tem cheiro de peixe no centro
que só tem calor na hora de partir

Ainda sinto a melancolia do sal e da sujeira
Os Quilômetros ásperos e salgados com os olhos ardendo
que só tem a saliva de meus amigos
que só tem falta e a calçada quebrada

Derreto e escorre em lágrima
Não dá pra tirar o choro do mar
nem se nota o grito debaixo d’água

Os olhos fechados evitam o reflexo
Os cortes abertos pelas ostras
A febre noturna de um dia de sol

O sono da tristeza
A chuva grossa para o alívio
de uma madrugada fresca

Na Bahia de minha memória
Iemanjá deixou voltar a dor
nas ondas do mar

Mas o amor profundo
Eu mesma escondo
No minha garganta seca

Mas o amor profundo
Eu mesma escondo
No meu caminhar lento

Ô Bahia
Bahia que não me sai do pensamento
Bahia que hoje canta o meu lamento
Pensando só na saudade que eu sinto da minha cidade